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Manaus a Porto Alegre-1976 - GAU
EM ÁUDIO
AVENTURA
Este relato foi feito por João Gonçalves Filho, um gaúcho que vive em Manaus. Apaixonado por motocicletas, João esperou quase oito anos para realizar seu maior sonho: ir do Amazonas ao Rio Grande do Sul com uma moto. Ele conseguiu: viajou aos Estados Unidos, andou muito até encontrar uma Harley-Davidson 1.200 ano 1976, trouxe-a para Manaus e fez a grande viagem. Depois de chegar a Porto Alegre, voltou a Manaus. Duas Rodas Motociclismo publica o relato de viagem de João, praticamente inalterado: o que ele sentiu, os amigos que ele encontrou nesses 15 mil quilômetros de aventura para cruzar o Brasil duas vezes de ponta a ponta, suas decepções e alegrias. E publica, também, um convite de João: que todos os motociclistas façam uma viagem para Manaus, onde ele poderá esperá-los pessoalmente e recebê-los em sua casa.
Esta é a história de João Gonçalves Filho e sua Harley 1.200:
Em 1969, quando cheguei a Manaus e comprei minha primeira motocicleta, já pensava que, um dia, voltaria a Porto Alegre de moto. E isto realmente aconteceu.
Bem, mas a história não começou assim, tão fácil. Primeiro, foi muito difícil para quem chegava à cidade, completamente sozinho, juntar o dinheiro para comprar a primeira moto. Foram, depois dessa, várias motos: Honda, Yamaha, Kawasaki, Harley-Davidson.
Enquanto isso, o tempo ia passando. Agora, já casado, as viagens eram projetadas a dois. Uma vez, parecia tudo certo. Mas tivemos que interromper tudo e começar de novo os planos: desta vez, para três pessoas. Era uma futura motoqueira, e o orçamento da viagem foi aplicado em ginecologistas, fraldas, mamadeiras, etc. Assim, entre um motoqueiro frustrado pela milésima vez e um papai coruja, cheguei a Porto Alegre via Varig. E isso ainda se repetiu, ora com o avião, ora com o carro.
Mais uma viagem foi planejada: a avó ficaria com a futura motoqueira. Compra-se outra moto, mas a história se repete: outra motoqueira a caminho — esta vai nascer em Porto Alegre. E a rota Manaus–Porto Alegre continua a ser trilhada via aérea.
Agora basta, digo eu. Depois de um balanço da situação — a viagem tá bem — importei direto uma Harley 1.200 ano 1975. Quando ela chegou, durante os três dias de montagem foi uma festa. E a viagem foi planejada para daí a quatro meses.
Surgem novos problemas: a avó já ficava com uma neta. Então, a mãe teria que ficar com a outra filha. Aí, veio o ultimato: ou vão os dois de moto para o Rio Grande do Sul ou não vai ninguém. Enquanto se discutia isso, a firma paulista precisou de mais um motoqueiro. Vende-se a moto por 45 mil, preço de custo, e o motoqueiro fica frustrado. Mais uma vez.
Novos planos. Mas uma nova crise na firma me obriga a vender: Yamaha, duas Maxi Motovi, as Kombis, Chevette, lancha, caminhão, Dodge Dart e apartamento. No fim, foi vendida a própria firma.
O cérebro trabalha feito louco, e as mil frustrações são visíveis à flor da pele. "Não é somente um negócio desses", penso eu. Sempre pedi a Deus que não precisava ajudar, tinha gente mais precisada do que eu. Mas já estava achando que ele não me entendera direito e estava me atrapalhando.
No meio de tudo isto, meu otimismo gritou mais alto: "Vou de moto para Porto Alegre!"
Mas o eco de minhas palavras trouxe um coro de risadas dos amigos:
— Vai sim. Fazem só sete anos que ouvimos esta conversa. Se todas as motos compradas para esta viagem rodassem 300 km cada uma no rumo de Porto Alegre, hoje teríamos um motoqueiro chegando a São Paulo.
Não dormia durante a noite. O cérebro parecia um computador. Já um pouco recuperado das finanças, resolvo vender tudo que tenho e providenciar a mudança para Porto Alegre. Vou começar a guerra!
Enquanto esposa e filhas iam para Porto Alegre, fui para os Estados Unidos, com um vocabulário de 16 palavras em inglês. Consegui comprar um carro no ferro-velho e achei um americano com quem tínhamos transações comerciais. As coisas começaram a andar. Foi assim que achei a Harley modelo 76 que tinha visto na Manchete, na exposição de Paris, e que fora a vedete do salão, junto com a Benelli 6 cilindros.
No dia 3 de janeiro de 76, depois de rodarmos várias cidades da Flórida, achamos a moto exposta em um revendedor, toda negra. No dia 7, embarco para o Brasil, junto com a moto, que fica em Manaus. Eu pessoalmente segui para Porto Alegre, para ver o pessoal e convencer minha mulher de que o melhor era voltar a Manaus e vir, sozinho, com a moto. Consegui.
Já em Manaus, vai começar a segunda batalha, com o Despacho Alfandegário e Internação do Produto. Depois de 30 dias, o correio é muito usado rumo aos pampas, as telefonistas são constantemente acionadas para liberá-la mais. Agora, os 30 dias já viraram 50 e os amigos voltaram à carga: "Mais uma moto que poderia ter rodado 300 km no rumo de Porto Alegre". Mas eu sei que meu dia chegará...
E chegou, realmente. Um belo dia, a Alfândega libera a moto, a um custo de 152 mil cruzeiros. Junto-me a mais dois gaúchos que foram a Manaus comprar motos usadas — liberadas no mercado do dia da Harley — e, com minha moto, formamos um trio estranho: uma Harley 1.200, uma Honda 350 e uma Yamaha 200. Não interessa a diferença de potência, todas gaúchas fazem 100 por hora. O importante é fazer a viagem, pois temos as mesmas idéias e vamos para Porto Alegre. E esse é nosso grito de guerra.
Discute-se a rota: Manaus, Porto Velho, Cuiabá, São Paulo e Porto Alegre? Ou Manaus, Belém (de barco), Brasília, São Paulo e Porto Alegre?
Depois de dois dias de discussão, decide-se pela rota de Belém, pois é inverno em Manaus e, na Bacia Amazônica, inverno é sinônimo de chuvas, quando o rio Amazonas sobe a mais de 12 metros de seu nível. Não é a chuva que nos intimida, é a estrada Porto Velho–Cuiabá, com 1.200 km de lama. Não temos conhecimento de nenhum motoqueiro que tenha feito uma viagem com êxito nesta estrada, no período de inverno.
Já optamos por Belém, vamos procurar balsa, barco, qualquer coisa que nos leve a Belém (uma jangada, para nós, já era transatlântico). Achamos uma balsa que baixaria a Belém com 600 toneladas de compensado e acertamos com ela para o dia 6 de fevereiro.
A Honda 350 ainda está na oficina com o motor sendo retificado. Vamos dividir os afazeres: cada um recebe várias missões por dia. O Milton é designado para ajudar o mecânico, que não quer nada com o serviço.
E chega o dia 16, adiado para 17. Foi bom, pois a moto não estava pronta. No dia seguinte, a duas horas do embarque, os platinados e carburadores ainda estão sendo regulados. Faltando 30 minutos, a Honda rateava seu motor. Aparece um vazamento de óleo, imediatamente sanado. Aparece outro vazamento na tampa de regulagem das válvulas, mas não temos mais tempo. O mecânico explica como tirar o vazamento e...
Vamos embora! Este é um grito de guerra contido há mais de sete anos. Passa mais um general de campo dando ordens. As três motos saem rumo ao porto flutuante de Manaus; na nossa frente embarcam vários carros. Pedimos mais espaço para as motos, pois precisaremos delas durante a viagem.
São 19 horas. Olhamos para as motos, que parecem mulas de carga. A bagagem de um motoqueiro de primeira viagem parece impressionante — e eis que saí da Zona Franca de Manaus.
Às 20 horas, ficamos sabendo que o rebocador da balsa não tem óleo suficiente e a viagem é adiada para o dia seguinte. A frustração é geral. Voltar para a casa dos amigos, onde houve uma festa de despedida na noite anterior, é motivo perturbador para uma batalha só. Que fazemos? Dormimos na balsa? Escondemo-nos até o dia seguinte? Voltar para a casa dos amigos e continuar a festa?
Optamos pela última e ficamos lá até altas horas da madrugada. Na festa, juntaram-se a nós dois outros motoqueiros paulistas que foram comprar motos e ainda estavam com problemas de documentação. No auge da festa, os brindes, com frases como essas:
— Se a balsa for ao fundo, vamos juntos.
— Ir a nado a Belém não é fácil... (o texto continua na página seguinte)
| Título: Manaus a Porto Alegre |
País: Brasil |
| Revista: Duas Rodas | Cidade: Manaus |
| Ano: 1976 |
AVENTURA
(continuação)
começar tudo de novo.
Deus, deixe-nos pelo menos rodar 500 km.
Às 12h38 do dia seguinte, o rebocador ronca seu motor de 270 HP. Estamos passando o encontro das águas dos rios Amazonas e Negro. A alegria é tanta que as águas do Negro parecem verdes, azuis... As do Amazonas, barrentas, são amarelo-ouro.
Outro problema: a balsa passa por cima de uma árvore submersa (nesta época, o rio se enche e traz árvores monstruosas, submersas, muito perigosas para a navegação), que arrebenta a hélice do rebocador. Os marinheiros mergulham no rio para retirá-la — são 600 quilos — para conserto.
Vamos embora rapidamente, para aproveitar o dia, pois navegar no Amazonas à noite é perigo de outras eras: podemos passar por cima de outras árvores. O barco não atravessa a barreira das chuvas torrenciais. No meio do temporal, é preciso encostar no barranco e esperar o dia amanhecer ou a lua sair.
Ficar parado na beira do Amazonas é doar no mínimo dois litros de sangue para as muriçocas (pernilongos). O Adelar e eu entramos dentro de um dos carros e começamos a caçada aos mosquitos. Não me lembro de quantos matamos, mas acho que dormimos de fraqueza pelo sangue perdido.
No fim, nós três acabamos tomando conta do barco, sempre que ele encostava por causa da noite, enquanto a tripulação dormia. E nós acordávamos os marinheiros e o capitão com as buzinas Fiamm das motos — de três e sete cornetas. Não ficava ninguém de pé, o comandante xingava muito. Mas o pessoal é excelente: a Cia. de Navegação J. Leite é de um motoqueiro de 20 anos, o Passulo. E qualquer motoqueiro tem uma carona garantida em um de seus barcos.
Como somos amigos do dono, o comandante xingava mas não mandava nos jogar na água. Comandante Quarenta, desculpe-nos e muito obrigado por tudo!
Chega-se a Belém. Vamos despachar as malas e um resto da mudança para Porto Alegre. Acabei ficando sem dinheiro, tive que vender uma máquina fotográfica e 30 filmes coloridos trazidos da Zona Franca. Às dez e dez da manhã, entramos na Belém–Brasília.
Quando vejo o Milton pilotando a moto neste movimento, fico louco da vida. O cara não tem nenhuma noção de moto, aprendeu a andar em Manaus e tirou carta lá mesmo. Não rodamos 30 km e a moto dele deu problema na embreagem. Paramos para consertar a Yamaha e reiniciarmos a viagem. Nessa noite, colhemos 358 km e, quando paramos, a moto do Adelar não tinha uma gota de óleo no cárter. Vazava por todas as juntas do motor, e até hoje ainda xingamos o mecânico.
O dia mal amanhece e já estamos esquentando os motores, motos abastecidas, etc. Onde está o Milton? Fomos encontrá-lo na cozinha do hotel, brincando com o macaquinho que ele trouxera de Belém. Ele nos atrasou meia hora, mas neste dia rodamos 380 km, a maioria à noite. As motos não estavam aguentando bem a viagem. Quem ia melhor era a Yamaha: por ser dois tempos e a de mais baixa cilindrada (200 cc), aguentava melhor o calor e a gasolina da região, misturada com óleo diesel, água, álcool, etc.
Terceiro dia de viagem na Belém–Brasília: com facilidade, consegui arrumar gasolina de avião nos aeroportos e aeroclubes das várias cidades à margem da rodovia. Os comandantes e pilotos de avião, não sei porque, tratam os motoqueiros com uma consideração fora do comum. Acho que eles são como nós: poucos, destemidos e unidos.
Nesse mesmo dia, verificamos que já rodamos 850 dos 2.200 da estrada. A Honda 350 está gastando um litro de óleo a cada 50 km, e ela já destruiu todo nosso orçamento para a viagem. No quarto dia, uma decisão: colocar a Yamaha e a Honda em cima de um caminhão, pois o dinheiro está acabando e não vai dar para as três irem rodando até Brasília.
Conseguimos uma transportadora para São Paulo, agora temos que arrumar dinheiro para o Milton e o Adelar chegarem a Brasília. Não conseguimos carona, então arranquei o toca-fitas da Harley e deixei com os dois. Vai ser vendido pela metade do preço de Manaus, para pagar a passagem deles. Combinamos de nos encontrar em Brasília, mas não sei o que aconteceu: desencontro total. A esses dois amigos, Milton e Adelar, os meus respeitos à sua coragem demonstrada durante toda a viagem. Passei oito anos andando de moto e vocês oito dias. Em dezembro, eu os espero aqui em Manaus, para mais uma viagem. Sem broncas, sem gritos, com aquele macaquinho de cheiro (como é conhecido no Amazonas esses pequenos macacos que os turistas gostam de trazer para o Sul).
Saio só, agora. A viagem torna-se monótona, mas sinto que estou feliz, pois não tenho que me preocupar com os amigos deixados para trás. Sinto é muita falta de suas risadas.
Chega a Brasília com 10 litros de gasolina verde, encho o tanque da moto, vendo o depósito plástico no posto e vou para um hotel de três estrelas. Quero coisa boa, chega de sofrer na estrada. O dinheiro no bolso — 67 cruzeiros — mal dava para almoçar. Cheguei imundo ao hotel, pois peguei a maior chuva antes de Brasília. Depois de duas horas no chuveiro, pergunto ao telefo... (continua)
A moto de João
É uma moto diferente: seus 400 kg (com todos os equipamentos) tornam a tarefa de dirigi-la em baixa velocidade e manobras um pouco difícil. A alavanca de marchas tem curso muito grande e o engate se faz com um estalido seco. Suas características mecânicas — com várias soluções "automobilísticas" — fazem da Harley FLH 1.200 uma moto suave (pela sua estabilidade já exige essa suavidade) e pouco ágil em trânsito intenso. O motor tem bom torque em baixa velocidade e não aceita altas rotações com facilidade. Na estrada, é extremamente confortável e seu peso — que na cidade prejudica um pouco — proporciona uma boa firmeza. Tem uma estabilidade calma que permite enfrentar as curvas de alta velocidade com uma técnica pouco utilizada em máquinas grandes: em qualquer velocidade, uma Harley deve ser dirigida pelo piloto sentado e ereto.
Esta Harley em particular é um dos equipamentos possíveis, com uma carenagem integrada ao corpo da moto, que não acompanha os movimentos do guidão. Tem um exterior completamente diferente das máquinas japonesas de uma cilindrada. Sua aceleração não é violenta (apesar dos 1.207 cc, ela tem apenas 66 HP), mas sua capacidade de manter velocidade e andar com a moto em baixas rotações é impressionante.
Apesar da enorme carenagem — que envolve o piloto e a moto — há uma sensação que não pode ser esquecida: os olhares de todos parecem "atrasar-se" na carenagem, e o ar de espanto dos espectadores dá ao piloto uma responsabilidade enorme. Ela deve ser dirigida com calma e controle, além de um ar despreocupado (difícil de manter) de quem está acostumado a este exagero motociclístico. A FLH 1200 tem uma estética atualizada (foi uma das principais atrações do mais recente Salão de Paris) pela renovação estética que a Harley apresentou com esta moto (carenagem original e o contorno mais elevado dos vários cromados, entre outros).
Um detalhe que mostra o cuidado que a Harley dedica a esta "pequena" é uma lente vermelha em um parafuso do motor: enquanto a lente permanecer na cor original (vermelha), o motor tem garantia (pode rodar aproximadamente 160 mil quilômetros). Se a moto for usada fora das condições normais e submetida a esforços que possam causar superaquecimento, esta lente mudará de cor e a garantia será automaticamente cancelada. Se o motor for aberto, este parafuso (no cabeçote) quebrará a lente e a garantia também será anulada.
Outro detalhe é que, como base nos pés, a cobertura de borracha tem pequenas estrias (também de borracha) que eliminam qualquer vibração que possa ser sentida pelo piloto.
Com todo este cuidado com detalhes, a Harley-Davidson continua fazendo do seu modelo de 1200 cc (Electra Glide) o ponto alto de sua linha quanto a imponência e durabilidade: a FLH tem praticamente todos os seus componentes mecânicos superdimensionados e extremamente resistentes. Este superdimensionamento aumenta seu peso (muito), mas não diminui sua aceleração. Da mesma forma, o motor de 1200 cc é pouco aproveitado em potência, mas aumenta sua durabilidade.
Seu consumo médio em estrada (de 10 a 12 km/l) é bastante próximo ao de um carro pequeno. Porém, esta comparação de consumo não é válida, pois nenhum apaixonado pela Electra Glide iria se contentar com um automóvel.
Não é uma moto muito veloz (considerando sua cilindrada) e sua estética e mecânica são bastante tradicionais. Mas é uma moto que sempre terá admiradores apaixonados de suas várias e diferentes dimensões.
Ficha Técnica
| Motor: V-Twin (dois cilindros em V a 45º), 4 tempos | Transmissão: embreagem multidisco a seco, quatro marchas (5ª opcional), transmissão primária e secundária por corrente |
| Diâmetro × curso: 87,3 × 100,8 mm | Sistema elétrico: alternador com retificador solid-state e regulador de voltagem, 12 V, partida elétrica (sem pedal de partida) |
| Taxa de compressão: 8:1 | Tanque de combustível: 20 litros |
| Potência: 66 HP a 5.200 rpm | Reservatório de óleo do motor: 3,3 litros |
| Distância entre eixos: 1.560 mm | Peso: 450 kg (aproximado) |
| Velocidade máxima: 175/180 km/h (aproximada) |
AVENTURA
(continuação e final)
...nista que o dia é hoje. É domingo de carnaval, o que significa esperar até quarta-feira para tirar dinheiro no banco.
Fico muito conhecido pelo pessoal do hotel, por causa da Harley, e os convites para o carnaval aparecem às dezenas. Como posso dizer que não fumo?... digo que me hospedei num hotel tão fino?
Na quarta-feira, sou o primeiro a entrar no banco e o primeiro a sair, rumo à estrada, pois nesta altura também já tinha vendido vários objetos trazidos de Manaus.
Quarta-feira de Cinzas. A estrada é deserta, a moto roda bem tranquila e a cada 200 km a Polícia Rodoviária me para para examinar a moto. Os guardas comentam sobre a Harley, fazem rodinha. Nenhum deles me pediu documentos, só queriam ver a moto.
Entro em Uberlândia e os motoqueiros fazem uma passeata comigo na frente para mostrar a cidade. Vão todos os tipos de moto, até uma BMW com 30 anos de uso. Resolvi dormir ali e sair cedo. Em Araraquara, em minha volta havia sempre mais de 30 motoqueiros ou candidatos, e todos fazendo perguntas ao motoqueiro.
No dia seguinte, chego à cidade mais importante dessa história toda: Bauru. Esqueci de falar que sou rádio-amador na faixa de PX (Faixa do Cidadão) e o rádio-amador estava instalado na moto com uma antena "maria-mole" de quase três metros de altura. Isso deixava a Harley com cara de moto policial.
Logo que eu entrava na baixa em Manaus, fazia contato com Bauru, e os rádio-amadores da cidade me deram um apoio completamente fora do comum. Minha família teve notícias constantes através dos rádio-amadores — e é aqui questão de omitir os nomes para não fazer injustiças. Porém, a vocês de Bauru, onde passei dois dias na marra, muito obrigado, amigos PXs de Bauru!
Saio de Bauru e vou dormir em Londrina. Lá, a turma de motoqueiros não está no gibi. Além de muita moto, a turma é espetacular. De lá, vou chegar a Curitiba, depois de entrar em Ponta Grossa (onde encontrei uma cara bacana demais, que saiu com seu Dodge Dart amarelo procurando gasolina azul para minha moto). Em Ponta Grossa, tomamos cerveja, batemos duas horas de papo e depois vamos todos para Curitiba. A 40 km de Curitiba, a moto dá um problema no freio traseiro.
O trânsito é intenso nesta estrada, domingo à tarde. Por isso, não encontrei mais meus amigos, a quem deixo um obrigado. Aliás, é preciso agradecer a todos os desconhecidos maravilhosos que encontrei nesta viagem que corta o Brasil de Norte a Sul.
Não gostei dos motoqueiros de Curitiba e fico decepcionado. Vou embora tarde da noite, na manhã seguinte, depois de arrumar meu freio na oficina de um ex-soldado da Polícia do Exército. Agora, o rumo é Florianópolis, onde vou para a casa de minha irmã.
Depois de mais de meia hora, resolvi chegar a Porto Alegre direto. São nove da noite, minha irmã chora, diz que a estrada é perigosa.
Mas os sete anos não deixam esperar nem mais um minuto. Capacete no braço, luva no bolso, refaço os três quilômetros que levam à estrada e paro à beira da BR-101. Ponho capacete, luva, blusão de couro e dou partida na máquina. A resposta vem em seguida: são mais de 1.200 cc que vão deixar o acostamento. A cada marcha ela adquire mais velocidade. Aos 140, acho razoável esse ritmo e vou conversando com a Harley, com tapinhas no tanque:
— Vamos embora, Preta. Em Porto Alegre você descansa...
Com isto, meu ânimo melhorava e a moto engolia retas, descidas e subidas. Às duas da madrugada, vi a porta do céu aberta, quando li os dizeres:
Divisa do Estado de Santa Catarina e Rio Grande do Sul
Fiquei em pé em cima da moto, atravessei a ponte e gritei, logo que a roda dianteira tocou o lado gaúcho:
— Cheguei, pessoal!
Estou em Porto Alegre às 4h30 da manhã. Minha esposa mal me reconhece: estou barbudo, e foram 60 dias de espera. Temos muito que contar um ao outro, as crianças nem sabem da vovó. Depois de 27 horas sem dormir, sinto-me muito cansado. São 8h30 da manhã e, depois da última batalha conquistada, ganhei a guerra.
Depois de três dias, levo minha esposa a Florianópolis, na garupa, para umas pequenas férias. Em Porto Alegre de novo, depois de uma pesquisa do mercado de trabalho, resolvo voltar a Manaus.
Vai começar tudo de novo. Faço uma revisão na moto, prometendo à minha esposa que, em 15 dias, estaremos juntos em Manaus. A rota é a mesma da ida.
Florianópolis — a casa da irmã que anoto os motoqueiros maravilhosos desta capital. Chego a Curitiba: 50% dos motoqueiros andam em grupos ou patotas, cada grupo tem o mesmo poder aquisitivo, são divididos pelo que os seus pais são ou pelo poder do dinheiro. Junto a estes grupos, os para-saços, que não deveriam andar nem de bicicleta, quanto mais de moto. Conheço os motoqueiros de Harley e BMW, almoço na casa deles e parto para São Paulo.
Chego às três da madrugada, com uma febre que mal consigo abrir os olhos. Vou para um hotel e, no dia seguinte, para a casa de meu irmão Paulo, que é médico. Sábado ele vai para Santos e eu para o Ibirapuera, pois ouvia dizer que lá existe a maior reunião de motoqueiros num só lugar em todo o mundo!
Apareço meio desconfiado, meio sem graça. A moto parece um caminhão, de tão grande (são 482 quilos). Papo vem, papo vai, às dez da noite o Ibirapuera fecha. Já tenho vários amigos, já conheço muitos, e conheço a região melhor do que muitos motoqueiros de São Paulo, meu velho conhecido. Sou levado para o bar da Janda, e cada vez que vejo os motoqueiros e motoqueiras... incrível descrever esse pessoal de São Paulo: fabulosos!
Dou uma risada e lembro de alguns de Curitiba. Aqui, ninguém perguntou quem eu era, mas conheci médicos, advogados, jornalistas, artistas de tevê e cinema, comerciantes, filhos de milionários (e de milionários paulistas!). Enfim, conheci gente que, ao subir numa moto, assume uma única personalidade: ser motoqueiro.
Já estou em São Paulo há uma semana e sou frequentador dos dois lugares mencionados. Por incrível que pareça, nessa cidade vi moto bater contra moto! Vi de tudo, só não vi discussão — de política, de moto, ou qualquer outra. Todos respeitam os pontos de vista dos outros, pois se respeitam os seus.
A Harley está com quase 6 mil milhas rodadas, tirando as 527 que rodei em Manaus para amaciá-la. Devo chegar a Manaus com um mínimo de 10 mil milhas, o que dá no máximo 15 mil km dentro de um único país, que é o Brasil (um gigante com muita coisa para se descobrir, principalmente em cima de uma moto).
Como Manaus é no fim do Brasil, vou mandar este relato para a Duas Rodas Motociclismo, pois não li nesta revista uma viagem dessas feita em nosso território. E espero que isso sirva de incentivo aos motoqueiros, para que conheçam Manaus, onde estarei à disposição de todos.
Estarei esperando em Manaus: rua Dr. Machado, 904 – Manaus – Amazonas – Brasil. Mas eu precisava dar um fecho ao relato. E queria agradecer aos que me ajudaram nesta viagem:
Aos caminhões: que me deixaram chegar vivo.
Aos meus amigos: cheguei e estou pronto para outra.
Aos motoqueiros do Ibirapuera e da Janda: continuem dando exemplos.
Aos rádio-amadores de Bauru: mandem para as famílias as mensagens dos motoqueiros em viagem.
À minha esposa: perdoe-me pelos golpes baixos, pois a minha viagem serviu para nós dois.
Às minhas filhas: quando a velhice chegar, terei uma moto para que vocês continuem, se assim quiserem, a seguir o velho Pai.
João Gonçalves Filho passou por São Paulo e continuou sua viagem de volta. Não satisfeito em conhecer todo o litoral brasileiro, atravessou a Transamazônica, percorrendo 3.800 km de selva e mato, com sua Harley 1.200: o primeiro motociclista brasileiro a fazer este roteiro. João, voltando a Manaus pela Transamazônica, é a aventura do próximo número.
Box de encerramento:
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